sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

João Calvino - Histórico

Calvinismo

João Calvino
Bases históricas:

Cristianismo
Agostinho de Hipona
Reforma


Marcos:

A Institutio Christianæ Religionis de Calvino
Os Cinco Solas
Cinco Pontos (TULIP)
Princípio regulador
Confissões de fé

Influências:

Teodoro de Beza
Sínodo de Dort
Teologia puritana
Karl Barth


Igrejas:

Reformadas
Presbiterianas
Congregacionais



João Calvino (Noyon, 10 de Julho de 1509 — Genebra, 27 de Maio de 1564) foi um teólogo cristão francês. Calvino teve uma influência muito grande durante a Reforma Protestante, uma influência que continua até hoje. Portanto, a forma de Protestantismo que ele ensinou e viveu é conhecido por alguns pelo nome Calvinismo, mesmo se o próprio Calvino teria repudiado contundentemente este apelido. Esta variante do Protestantismo viria a ser bem sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os africânderes), Inglaterra, Escócia e Estados Unidos da América.

Nascido na Picardia, ao norte da França, foi batizado com o nome de Jean Cauvin. A tradução do apelido de família "Cauvin" para o latim Calvinus deu a origem ao nome "Calvin", pelo qual se tornou conhecido.

Calvino foi inicialmente um humanista. Nunca foi ordenado sacerdote. Depois do seu afastamento da Igreja católica, este intelectual começou a ser visto, gradualmente, como a voz do movimento protestante, pregando em igrejas e acabando por ser reconhecido por muitos como "padre". Vítima das perseguições aos protestantes na França, fugiu para Genebra em 1536, onde faleceu em 1564. Genebra tornou-se definitivamente num centro do protestantismo Europeu e João Calvino permanece até hoje uma figura central da história da cidade e da Suíça.

Martinho Lutero escreveu as suas 95 teses em 1517, quando Calvino tinha oito anos de idade. Para muitos, Calvino terá sido para a língua francesa aquilo que Lutero foi para a língua alemã - uma figura quase paternal. Lutero era dotado de uma retórica mais direta, por vezes grosseira, enquanto que Calvino tinha um estilo de pensamento mais refinado e geométrico, quase de filigrana. Citando Bernard Cottret, biógrafo (francês) de Calvino: "Quando se observa estes dois homens podia-se dizer que cada um deles se insere já num imaginário nacional: Lutero o defensor das liberdades germânicas, o qual se dirige com palavras arrojadas aos senhores feudais da nação alemã; Calvino, o filósofo pré-cartesiano, percursor da língua francesa, de uma severidade clássica, que se identifica pela clareza do estilo".

NOYON

O avô de João Calvino trabalhava numa cantina em Point-l'Évêque, nas proximidades de Noyon. Teve três filhos: Richard (Ricardo), que foi serralheiro e se instalou em Paris, Jacques (Jaime ou Tiago), igualmente serralheiro e, finalmente, Gérard (Geraldo) Cauvin, pai de João Calvino, que foi aquele que talvez mais se destacou dos três, tendo feito carreira em Noyon como funcionário administrativo.

Gérard Cauvin estabeleceu-se em Noyon em 1481. Foi inicialmente um simples secretário da chancelaria. Seria, depois, advogado representante do bispado de Nyon; mais tarde, funcionário relacionado com a cobrança de impostos e, finalmente, o promotor (representante) do bispado, antes de entrar em conflito com este. Faleceu em 1531 após uma disputa com o bispado, pela qual foi excomungado. A autorização para o seu funeral seria deveras dificultada devido a esta querela.

A mãe de Calvino, Jeanne Le Franc, de seu nome de solteira, era filha de um dono de uma hospedaria em Cambrai, que tinha enriquecido. Jeanne faleceu em 1515, quando João Calvino tinha apenas 6 anos de idade.

Gérard e Jeanne tiveram quatro filhos:

Patricia
Charles (Carlos) - o mais velho, foi padre. Faleceu em 1536.
João Calvino.
Antoine (Antônio) - iria mais tarde viver em Genebra, junto do irmão.
François (Francisco) - morreu ainda em tenra idade.
Haveria ainda duas irmãs, que nasceram do segundo casamento de Gérard. Uma chamou-se Marie (Maria) e iria também viver em Genebra. Da outra irmã sabe-se pouco.

João Calvino nasce a 10 de julho de 1509, nos últimos anos do reinado de Luís XII. Frequentou inicialmente o "Collège des Capettes" em Nyon, onde adquiriu conhecimentos básicos de latim.

Em 1 de Janeiro de 1515 o rei Francisco I de França (François, roi des françois), sucedeu a Luís XII. Inicialmente moderado em matéria de religião, a postura deste rei foi endurecendo ao longo do seu reinado, terminando na perseguição declarada dos protestantes.

Pela Concordata de Bolonha, assinada no início do seu reinado, o papa Leão X concedia ao rei da França o direito a nomear os titulares dos rendimentos da igreja. Em contrapartida, o Papa via reforçados os seus direitos sobre a Igreja em França.


Paris
Em 1521, com doze anos, João Calvino ganhou o direito a uma "benefice", ou seja, um rendimento anual que era concedido a elementos e familiares da hierarquia da igreja. No seu caso, consistia numa determinada quantia anual de cereais pagos por uma comunidade de La Gésine.

Em 1521 ou 1523 (data incerta) o pai enviou-o a Paris. Terá provavelmente vivido inicialmente com o tio Richard, na zona de Sain-Germain-l'Auxerrois. Calvino começa por frequentar o Collège de la Marche, onde foi aluno de Maturin Cordier, um grande pedagogo do tempo. Estabeleceu, aí, amizade com as crianças da família d'Hangest, do bispo de Noyon, que se assumia, de certa forma, como protector dos Cauvins. Os seus amigos eram Joachin (Joaquim), Yves (Ivo) e Claude (Cláudio), a quem mais tarde dedicaria o seu comentário a "De Clementia" de Séneca, um autor conhecido pelo seu estoicismo.

Foi, de seguida, admitido no Collège Montaigu, uma escola de má reputação, conhecida pela sua rigidez, pelas sovas e má comida. A lista de professores em Montaigu, nesta época, incluía o espanhol Antonio Coronel e o escocês John Mair (que foi professor de Inácio de Loyola), mas não há provas definitivas de que eles tenham sido professores de Calvino.

Em fevereiro de 1525, o rei Francisco I foi encarcerado temporariamente em Pavia pelas tropas do imperador Carlos V. Com a intervenção do papa Clemente VII a favor de Francisco, a influência papal junto do rei de França aumenta consideravelmente. Numa bula de 17 de Maio de 1525 dirige-se a Francisco para que tome providências contra o crescente número de "blasfemos" em França e contra os ataques a imagens religiosas.

Em 1 de Junho de 1528 teve lugar em Paris o caso da Rue des Roisiers. Uma figura de madeira situada nessa rua (uma madona) foi decapitada por desconhecidos. O rei reage de forma veemente, organizando procissões, que passaram a ser repetidas anualmente. O incidente ainda era lembrado no século XIX.


Orleães
Em 1529, pouco antes de atingir os vinte anos de idade, a vida de Calvino sofreu uma súbita viragem. Vindo inicialmente para Paris com uma renda anual concedida pela Igreja, com o fim de estudar Teologia, ficará a saber que o pai mudou de planos em relação ao seu futuro e quer que ele siga Direito. A "ciência das leis torna normalmente ricos aqueles que se debatem com ela", referia o seu pai (ele próprio um advogado do bispado), segundo as próprias palavras de Calvino. Cumpriu a vontade do pai e foi estudar Direito para Orleães, mas nunca deixou de preferir a teologia. Como disse mais tarde: "Se Deus me deu forças para que eu cumprisse a vontade de meu pai, determinou ele pela providência oculta que eu tomasse finalmente um outro caminho" (o da Teologia). Inicialmente Calvino preparava-se para ser padre, enveredaria pelo estudo do direito, mas Deus trouxe-o de novo ao caminho da Teologia.

O biógrafo francês de Calvino, Bernard Cottret, escreve: "Direito e leis: Calvino, o teólogo, é no fim, também, Calvino, o jurista. O seu pensamento fica marcado pela austeridade, a adstringência e a geometria da lei, pelo seu fascínio ou aspiração a ela. No início do século XVI assiste-se no Direito a uma verdadeira revolução. A retórica de Cícero toma a primazia sobre a filosofia medieval, que se sustenta nos seus silogismos. Com a interpretação de textos jurídicos, Calvino toma contacto pela primeira vez com a Filologia humanista". O humanismo e o renascimento são, pois, os movimentos culturais que o vão influenciar em primeiro lugar. [1]

Em Orleães, Calvino foi influenciado pelo seu professor Pierre de l'Estoile. Em 1529, dirige-se também a Bourges, para assistir a aulas do famoso professor de direito italiano Andrea Alciati, onde também assiste a aulas do alemão Gräzist Wolmar, que o entusiasmou pela literatura grega da antiguidade.

Em 1529, Louis de Berquin foi queimado vivo em Paris, numa altura em que o rei, Francisco, estava fora da cidade.

Em 1531, Calvino, num prefácio ao livro de um amigo, toma partido pelo seu professor Pierre de l'Estoile num texto que explora a disputa entre este e Andrea Alciati, talvez por lealdade e nacionalismo. O que prova que o Calvino de 1531 ainda não é um reformador mas, acima de tudo, um humanista. Neste mesmo ano morre o pai, Gerard Cauvin. Calvino vai a Bourges, a Orleães e regressa de novo a Paris, onde se instala em Chaillot.


O humanista Erasmo de Roterdão também se interessou pela obra de SénecaEm 1532, foi doutorado em Direito em Orleães. O seu primeiro trabalho publicado foi um comentário sobre o texto do filósofo romano Séneca "De Clementia". Calvino cobre os custos da publicação do livro com dinheiro do seu próprio bolso. Aos 23 anos era já um famoso humanista, seguindo os passos de Erasmo de Roterdão, que também escreveu sobre Séneca nestes anos. Em "De Clementia" não há da parte de Calvino uma alusão explicitamente religiosa. É antes uma obra que reflecte o estoicismo de Séneca e a predestinação no sentido estóico. Séneca escrevera o texto como forma de apelar Nero à moderação e à razão.

Até 1532 não há, como se viu, qualquer indício de que Calvino tenha aderido à nova fé - nos seus diferentes focos e graus que surgem pela Europa - onde o Luteranismo surge como um movimento mais moderado e os anabaptistas como uma força mais radical.

A conversão de Calvino ao protestantismo permanece envolta em mistério. Sabe-se apenas que ela se deu entre 1532 e 1533 (Calvino tem 23 ou 24 anos). Um texto escrito por Calvino em 1557 como prefácio ao seu comentário sobre os salmos oferece-nos alguns parcos pormenores:

"Após tomar conhecimento da verdadeira fé e de lhe ter tomado o gosto, apossou-se de mim um tal zelo e vontade de avançar mais profundamente, de tal modo que apesar de eu não ter prescindido dos outros estudos, passei a ocupar-me menos com eles. Fiquei estupefacto, quando antes mesmo do fim do ano, todos aqueles que desejavam conhecer a verdadeira fé me procuravam e queriam aprender comigo - eu, que ainda estava apenas no início! Pela minha parte, por natureza algo tímido, sempre preferi o sossego e permanecer discreto, de modo que comecei a procurar um pequeno refúgio que me permitisse recolher dos Homens. Mas, pelo contrário, todos os meus refúgios se tornavam em escolas públicas. Em resumo, apesar de eu sempre ter pretendido viver incógnito, Deus guiou-me por tais caminhos, onde não encontrei sossego, até que ele me puxou para a luz forte, contrariando o meu carácter, e como se costuma dizer, me colocou em jogo. E, na verdade, deixei a França e dirigi-me para a Alemanha para que ali pudesse viver em local desconhecido, incógnito, como sempre tinha desejado."
Note-se que a França e Alemanha não existiam no sentido de hoje mas sim em termos de zonas de língua francófona ou alemã.

Entretanto, o papa Clemente VII pressionava o rei de França a reprimir os protestantes franceses. Em bulas de 30 de Agosto de 1533 e de 10 de Novembro do mesmo ano, o papa exortava à "aniquilação da heresia Luterana e de outras seitas que ganham influência neste reino". Os dois encontram-se, então, nesse mesmo ano, em Marselha, onde discutem entre outras coisas a "guerra contra os turcos, lá fora, e a repressão das heresias cá dentro".


O discurso de Nicolas Cop
A 1 de Novembro de 1533, o novo reitor da Universidade de Paris, o humanista Nicolas Cop, proferiu um discurso de abertura do ano lectivo na Igreja dos Franciscanos, em Paris, frente aos mais altos representantes das 4 faculdades: Teologia, Direito, Medicina e Artes. O seu discurso fazia eco de temas facilmente associados à nova teologia da reforma. Nesse discurso, Nicolas fez, particularmente, o paralelismo entre a perseguição aos primeiros cristãos e a que ocorria agora, século XVI, na França, e que visava os cristãos protestantes. Argumentava: Não eram também chamados de heréticos os primeiros seguidores do cristianismo? O resultado foi a perseguição do próprio Nicolas Cop, que teve de se refugiar em Basileia.

Simultaneamente, João Calvino fugia também de Paris. O seu quarto no Collège de Fortet é revistado, e seus papéis e correspondência são confiscados. Calvino encontra refúgio em Angoulême, em casa do seu amigo Du Tillet.

Não foi até hoje esclarecido completamente o que se passou. Encontrou-se, contudo, em Genebra, um fragmento do discurso de Nicolas Cop, escrito pela mão de Calvino. O documento original completo encontra-se em Estrasburgo. Foi levantada a tese de que Calvino poderia, pelo menos, ter participado na elaboração do discurso.

Calvino permanece em Angoulême até Abril de 1534, altura em que se dirige a Nérac, onde se encontra com Lefèvre d'Étaples. Regressa depois a Noyon, onde em Maio de 1534 renuncia às suas "benefices". Volta, então, a Paris e a Orleães.


A Psychopannychia
Em 1534, Calvino escreve o seu segundo livro, que será também o primeiro sobre religião. Chamar-se-á "Psychopannychia", palavra que deriva do grego e que significa: "O sono da alma". É um livro relativamente pouco conhecido, em comparação com as outras obras de Calvino. Calvino faz uma crítica severa aos anabaptistas, que acusa de serem uma seita tresmalhada. O livro coloca questões teológicas, mais do que oferecer respostas. Calvino, nos seus 24 anos de idade, está em processo de busca. Defende nessa obra a imortalidade da alma. O título completo era: "Psychopannychia - tratado pelo qual se prova que as almas permanecem vigilantes e vivas uma vez que tenham deixado os corpos, o que contraria o erro de alguns ignorantes que sustentam que elas dormem até ao último momento" - o que é, também, um ataque aos anabaptistas. Apesar de escrito em 1534, o livro seria apenas publicado em 1542.



O caso dos cartazes de 1534
Em 18 de Outubro de 1534, a história do protestantismo francês vive um dos seus momentos fulcrais, com o caso dos cartazes. Cartazes de 37 por 25 centímetros que criticam a celebração da missa tal como ela é feita oficialmente pela Igreja católica são afixados em vários locais. É particularmente atacada a repetição sacrificial da morte de Cristo, simbólica, no altar. Se o sacrifício já foi consumado, por que se apoderam os sacerdotes católicos deste ritual simbólico? Os argumentos teológicos dos protestantes fundamentam-se na Epístola de São Paulo aos Hebreus. A propaganda protestante pretende transmitir a ideia de que a eucaristia segundo a concepção católica é uma blasfémia, uma vez que a morte de Cristo não se deixa repetir. Esta demanda foi o resultado da acção de Antoine Marcourt, Pastor de Neuchâtel, também ele um natural da Picardia. A situação tornou-se particularmente crítica e descambou numa reacção brutal por parte da Igreja católica e do estado francês.

Protestantes franceses seriam encarcerados e assassinados. Em Janeiro de 1535, o rei Francisco I organiza uma procissão macabra pelas ruas de Paris. A procissão pára em 6 locais distintos. Em cada uma das paragens há um pódio onde o rei, os embaixadores e dignos membros do "parlement" se instalam para assistir à morte pela fogueira de 6 "heréticos" envolvidos no caso dos cartazes do ano anterior.



Basileia

Emblema da cidade de BasiléiaEm Janeiro de 1535, Calvino dirige-se a (ou foge para ?) Basileia, cidade onde vive até Março de 1536. Uma cidade conhecida por ter sido o lar de Erasmo de Roterdão e do reformador Johannes Oekolampad, falecido em 1531, sendo o seu seguidor Oswald Mykonius.



[editar] A tradução da bíblia de Olivétan
Em 1535 é publicada a primeira bíblia traduzida por um protestante, em francês. Tratava-se de uma tradução directa do Hebraico (o antigo testamento) e do Grego (o novo testamento) - línguas originais das escrituras - e não das versões então em uso, em latim. Algo totalmente natural no século do humanismo e de Erasmo de Roterdão. O autor é Olivétan, aliás Pierre Robert (1506-1538), primo de João Calvino e proveniente também de Noyon. Foi publicada em Neuchâtel por Pierre de Vingle.

Apesar de Pierre Robert ter demonstrado um bom conhecimento de Hebraico e Grego, o seu estilo de escrita foi considerado de difícil compreensão, além de uma certa falta de fluidez discursiva. O texto seria revisto (com a colaboração de Calvino) e publicado novamente em 1546.



O Édito de Coucy
Em 16 de Julho de 1535, o rei Francisco I faz publicar o Édito de Coucy, uma medida de contemporização para com os protestantes e que corresponde também a uma nova guerra de Francisco I contra Carlos V (Guerra de 1535-1538). Necessitando do apoio dos protestantes alemães para o esforço de guerra e não convinha, necessariamente, perseguir os "Luteranos" em França. É prometido que se deixarão os protestantes em paz desde que vivam como "bons cristão" e renunciem à sua fé. Mas, em Dezembro de 1538, o Édito de Coucy é suspenso e as perseguições aos protestantes retomam a intensidade anterior.

Institutio religionis Christianae
Em Março de 1536 é publicada em Basileia a primeira edição de "Institutio religionis Christianae". No prefácio menciona a sua estadia em Basileia, "enquanto na França são queimados na fogueira crentes e pessoas santas". Fala de santos mártires. Dirige-se no livro ao Rei Francisco I, que procura convencer das boas intenções da Reforma. Ao mesmo tempo, a sua teologia começa a adquirir contornos mais marcados e mais autónomos em relação ao Luteranismo. Uma tendência que se fortalecerá no futuro. Critica a vida dos mosteiros, que compara a bordéis. Calvino pretende não só a reforma da Igreja mas de todos os indivíduos. A institutio é "a organização da sociedade daqueles que acreditam em Jesus Cristo".

Em Março de 1536, Calvino viaja até Ferrara na companhia de Louis Du Tillet. Calvino esperava um acolhimento aberto às ideias protestantes na sua estadia em Ferrara. Enganava-se. Teria de interromper a visita logo em Abril. Foi então até Paris. Mas Calvino não tem futuro em França. Numa carta ao amigo Nicolas Duchemin, compara a sua situação com a dos judeus no Egipto. A França era o seu Egipto. Queixa-se na mesma carta dos rituais da missa, considerando-os idólatras. Calvino sai definitivamente da França em 1536, procurando terras politicamente independentes da França e de espíritos mais abertos para a reforma. Dirige-se, então, para cidades dos territórios que hoje constituem a Suíça.

[editar] A reforma em Genebra
Genebra é nesta altura já uma cidade de espíritos progressivos e abertos para a reforma protestante. Politicamente, a cidade está desde 1285 sob vassalagem aos condes de Sabóia ou à casa episcopal (ao bispo de Genebra), quase sempre ocupada por um bispo também da casa de Sabóia desde que o papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia) se autonomeou bispo da cidade. Na prática, no entanto, Genebra é quase uma cidade-estado, uma república que desde cedo se emancipou na conquista da sua liberdade municipal. Em 1522 inicia-se um conflito entre os pejorativamente chamados "mamelucos", que são conservadores e partidários da casa de Sabóia e os "confederados" (alemão: Eidgenossen; francês: Eidguenot) de onde possivelmente se formará a palavra Huguenotes (francês: huguenot). Estes últimos opõem-se a Sabóia. Em 1524, Karl III, Duque de Sabóia, tinha ocupado militarmente Genebra. Porém, em 1526, Genebra decide-se pela união com Berna e Friburgo, iniciando-se no caminho helvético. A reforma protestante não terá tido um papel determinante neste processo, segundo Bernard Cottret.[1] Mas a partir daqui começam a reunir-se em Genebra elementos da Reforma. Em 1533 há o primeiro culto protestante de que há conhecimento nesta cidade. São então cunhadas moedas com a inscrição: "Post tenebras lux" (após a escuridão, a luz).

O ano de 1536 marca uma viragem na cidade de Genebra. Neste ano, a reforma é adoptada oficialmente pela cidade. Os cléricos da igreja católica são intimados a deixar de celebrar a missa como o faziam, com o cerimonial papista e seus abusos (idolatria, aos olhos dos protestantes) e a juntarem-se aos protestantes. Num novo fôlego de zelo religioso, as raparigas são obrigadas a usar o véu, cobrindo os seus cabelos. Já desde 1532 que se registavam ataques e destruições de imagens religiosas, estátuas, figuras, etc. A adoração destas figuras era vista pelos protestantes como idolatria. Há um episódio carismático deste fenómeno: num destes ataques à "idolatria papista", uma multidão apodera-se de cerca de 50 hóstias de um padre, dando-as a comer a cão. "Se as hóstias pertencem mesmo ao corpo de Deus, não se irão deixar comer por um cão!" - é argumentado. Em Junho de 1536, são abolidos em Genebra, por decisão de um conselho, todos os feriados, excepto os domingos. Todas estas transformações deram-se sem a influência de Calvino. Aliás, ainda nem sequer aí tinha chegado.

[editar] Chegada de Calvino a Genebra

Genebra nos dias de hoje, uma das cidades mais ricas do mundo1536 é também o ano da chegada de Calvino a Genebra. Calvino tem nessa altura 26 anos.

Após a estadia em Ferrara, na Primavera de 1536, Calvino tinha estado em Paris, aproveitando-se de um período de relativa calma na perseguição aos protestantes. Tratou de assuntos pessoais e da família. Em junho faz em Paris uma procuração em nome do seu irmão. Em Julho de 1536, João Calvino, pretendendo dirigir-se a Estrasburgo, inicia a viagem, juntamente com o irmão Antoine e a irmã Marie. Em vez de tomar o caminho mais curto, Calvino faz um desvio pelo sul, evitando a área onde a guerra entre as forças de Francisco I e Carlos V são uma ameaça. Por coincidência, Calvino chega a Genebra, onde permaneceu, apesar de ter inicialmente pretendido continuar viagem, o que foi vivamente desaconselhado pelo reformador Guillaume Farel (na altura de 47 anos de idade). O caminho para Estrasburgo encontrava-se inseguro por causa da guerra. A Genebra que Calvino encontra vive ainda a agitação dos conflitos entre Mamelucos e Confederados.

João Calvino já tinha viajado até Estrasburgo durante as guerras otomanas, e passado através dos cantões da Suíça. Aquando da sua estadia em Genebra, Guillaume Farel pediu ajuda a Calvino na sua causa pela igreja. Calvino escreveu sobre este pedido: "senti como se Deus no céu tivesse colocado a sua poderosa mão sobre mim para barrar-me o caminho"". 18 meses depois, as mudanças de Calvino e Farel levariam à expulsão de ambos.

[editar] A disputa teológica de Lausanne
Entre 1 e 8 de Outubro de 1536, tem lugar na Catedral de Notre-Dame em Lausanne uma disputa teológica entre protestantes e católicos, na qual Calvino e Farel vão participar. Este tipo de conferências de disputa tem por modelo os debates que Ulrico Zuínglio tinha organizado em Zurique (1523) e Berna (1528). Do lado católico encontra-se Pierre Caroli, que iria acusar, em Berna, Calvino e Farel de heresia. Calvino é também acusado por Caroli de arianismo.

[editar] A saída atribulada de Genebra
A 16 de Janeiro de 1537, as autoridades da cidade de Genebra aprovam o documento escrito pelo líder protestante Farell, que se destina a servir de confissão de fé e orientação para todos os habitantes de Genebra. Calvino faz também algumas sugestões, parte das quais são rejeitadas. Cerca de vinte artigos dispõem, entre outras coisas, que os idolatras, querulantes, assassinos, ladrões, bêbados (entre outros) sejam futuramente excomungados. As lojas devem fechar ao domingo, assim que soem os sinos da missa.

Estas disposições, apesar de aceites pelas autoridades vão criar atritos com Farell e Calvino. O estigma da excomunhão é extremamente discriminador e destruidor de relações sociais no século XVI.

Em Março, os líderes anabaptistas de origem holandesa Hermann de Gerbihan e Benoît d'Anglen são expulsos de Genebra, juntamente com os seus seguidores.

Em Abril de 1537, por sugestão de Calvino, é constituido um "syndic" (síndico) que tem por objectivo ir de casa em casa e inquirir sobre a confissão dos moradores. A acção é contestada. Alguns moradores recusam-se a pronunciar-se sobre a sua fé.

Em junho de 1537 as autoridades de Genebra decidem que o Domingo é o único dia feriado. Futuramente nenhum outro feriado será considerado. 30 de Outubro é definido como o prazo para todos os moradores de Genebra se pronunciarem quanto à sua religião. Aqueles que não reconhecem os decretos de Farell são obrigados a deixar a cidade em 12 de Novembro. Após esta data, a situação complica-se para Farell e Calvino. Particularmente provocante é o facto de um estrangeiro (francês), como Calvino, decidir sobre a excomunhão e expulsão de habitantes naturais de Genebra. As autoridades, perante estes protestos, passam a ser mais críticas para com os líderes protestantes.

A 3 de Fevereiro de 1538 são eleitos para as autoridades da cidade de Genebra 4 pessoas que são inimigos de Calvino e dos protestantes. Em Março, estas novas autoridades proíbem Calvino e Farell de se pronunciarem sobre assuntos não religiosos.

Calvino e Farell negam-se a celebrar a comunhão de acordo com a tradição de Berna. São proibidos de celebrar os serviços religiosos. No entanto, no Domingo seguinte, 21 de Abril de 1538, Farell e Calvino celebram o culto de Ceia como habitualmente, Farell na Igreja de Saint-Gervais e Calvino na de Saint-Pierre. As autoridades dar-lhes-ão três dias para saírem da cidade.

[editar] Estrasburgo
Em 1538, Farell irá refugiar-se em Neuchâtel. Calvino dirige-se a Estrasburgo, após ter inicialmente pretendido ir para Basileia. Estrasburgo era na altura parte da zona de língua alemã, mas a proximidade da fronteira com a França significava que ali se tinha desenvolvido uma comunidade de exilados franceses. Tal como em Genebra Farell reconhecera o potencial de Calvino, em Estrasburgo Martin Bucer será o protector de Calvino. Durante três anos Calvino dirigiu em Estrasburgo uma igreja de protestantes franceses, a convite de Bucer. Segundo o biógrafo Courvoisier, Estrasburgo é a cidade onde Calvino se torna verdadeiramente Calvino. O seu sistema de pensamento é aqui consubstanciado em algo de mais marcadamente original. A sua obra Institutio é aqui re-editada (1539). É agora três vezes maior do que a primeira edição.

Em Outubro de 1539, Pierre Caroli chega a Estrasburgo, onde permanece pouco tempo. Caroli e Calvino, inimigos desde há anos, têm uma disputa. Caroli está agora algures entre o catolicismo e o protestantismo. Ele acusa Calvino de o ter confundido na sua fé. Calvino sofre uma crise nervosa.

Neste Outono de 1539, Calvino escreve também um comentário à carta de Paulo aos Romanos. Este tema é particularemente querido do protestantismo, porque ali se encontra a justificação através da fé como a base de sustentação do movimento protestante, pois somente a fé salva e justifica. A igreja é por este prisma mais uma comunidade de crentes do que um enquadramento jurídico. Os sacramentos só recebem o seu sentido através da fé. Sem fé não têm qualquer efeito. Já Lutero tinha destacado a carta de Paulo aos romanos como o cerne do Novo Testamento e o mais alto do evangelho.

[editar] Matrimônio
Em Estrasburgo, Calvino casa-se em Agosto de 1540 com a viúva Idelette de Bure, que tinha sido previamente adepta do anabaptismo. Traz duas crianças do seu prévio casamento. Calvino tem 31 anos de idade. A cerimónia do casamento foi dirigida por Guillaume Farel. Em 1541 a peste negra (ou peste bubónica) recrudesce em Estrasburgo. Idelette e as duas crianças procuram abrigo em casa de um irmão dela, nas redondezas.

[editar] Regresso a Genebra
Após a expulsão de Calvino, Genebra tinha adoptado os ritos de Berna. O natal, ascensão de Cristo e outras festividades cristãs voltaram a ser praticadas. Mas os católicos e os anabaptistas continuavam a ser perseguidos e "convidados" a deixar a cidade. A 18 de Março de 1539 o jogo tinha sido proibido em Genebra. Pedintes e vagabundos eram expulsos da cidade. A ausência de Calvino não tinha significado qualquer laxismo na moral estrita imposta na cidade.

As relações de Genebra com Berna permanecem tensas. Entretanto, os líderes que se opunham a Calvino (os chamados "artichoques") começam a perder influência. São acusados de simpatia por Berna. Jean Philip (João Filipe), um de seus líderes, é torturado e decapitado em 1540. Os oponentes, favoráveis a Calvino, chamados de "guillermins" ganham o poder.

Calvino foi convidado em Outubro de 1540 a regressar a Genebra, para reaver o seu posto na igreja, tal como o tivera antes da expulsão. A 13 de Setembro de 1541 Calvino chegou, pela segunda vez, a Genebra, mas, desta vez, definitivamente. Começou, então, a organizar e estruturar, de acordo com as linhas bíblicas, os ministérios e a acção dos professores e diáconos.

[editar] Zelo religioso radical
São ainda de 1541 as propostas de Calvino, no sentido da reorganização da igreja. As "Ordonnances de 1541" dispõem a formação de quatro corpos:

Pasteurs (pastores, que pregam)
Docteurs (ensinam)
Anciens (os mais velhos, que chamam à ordem aqueles que prevaricam)
Diacres (diáconos, que ocupam-se dos pobres e doentes) - mendigar é estritamente proibido
É decidida também a criação de um consistório - composto de elementos da igreja e de laicos - que se reúne regularmente para julgar os comportamentos individuais, como um tribunal, "de acordo com a palavra de Deus", sendo a excomunhão de pessoas a mais grave sentença que pode decidir.

A eucaristia só é praticada quatro vezes por ano.

Em 1542, Calvino publica em Genebra o seu livro de catecismo: "Catéchisme de l'Église de Genève, c'est-a-dire, le formulaire d'instruire les enfants en la chrétienté". A chave do projecto de Calvino passa pela pedagogia. O seu objectivo é a profunda transformação das mentalidades. Cada resquício de superstição, de práticas de magia, ou de catolicismo é perseguido como idolatria.

O consistório, do qual Calvino fazia parte, ocupava-se desses e de outros casos. Refiram-se alguns:

Em 1542, uma mulher chamada Jeanne Petreman é acusada de se recusar a participar da eucaristia, de dizer o pai-nosso em língua "romana" e de proclamar que a Virgem Maria era a sua defensora. Diz também que se nega a acreditar noutra fé que não a sua. É excomungada.
Em 2 de Setembro de 1546, aparece em Genebra um franciscano que pedia na rua um jantar em nome de Deus e da Virgem Maria. Devemos pressupor que ele obteve o seu jantar mas foi também levado ao consistório, que logo constatou que o "papista" mal conhecia a bíblia, além de ser inofensivo. Foi expulso da cidade, para o lado da fronteira, com os católicos.
A 23 de Junho de 1547 comparecem perante o consistório várias mulheres que tinham sido apanhadas a dançar - uma delas era a esposa de um dos membros do consistório. O caso ganhou contornos de escândalo. As mulheres foram condenadas a alguns dias de prisão, apesar de vários apelos. Em reacção à decisão, são colocados na cidade cartazes contra Calvino. O autor dos cartazes, Jacques Gruet, é torturado. Depois de confessar a sua autoria, é executado.
Em 1548, Louis Le Barbier é interrogado sobre a sua fé. Declara que não tem fé. Entretanto, descobrem livros de bruxaria e de escórnio na sua posse. É admoestado perante o consistório mas não será perseguido.
Os nomes de baptismo são regulamentados. Devem ser nomes que figuram na Bíblia. Um decreto de 22 de Novembro de 1546 dispõe que certos nomes são proibidos, entre os quais:

Suaire, Claude, Mama (lembram a idolatria)
Baptistes, Juge, Evangéliste
Dieu le Fils, Espoir, Emmanuel, Sauveur, Jésus (destinados apenas a nosso senhor)
Sépulcre, Croix, Noël, Pâques, Chrétien (nomes estúpidos ou absurdos)
O luxo e a pompa são desprezados. Em setembro de 1558, Nicolas des Gallars, um amigo de Calvino, inicia uma grande campanha na cidade em desprezo do supérfluo, as modas entre as mulheres e as más leituras. São queimados vários exemplares do livro "Amadis de Gaula", na posse de um comerciante. O zelo religioso tomava a forma de censura moral.

Peste Negra em Genebra
Em 1542, há um surto de peste negra em Genebra. A peste negra permanecia então um fenómeno incompreensível - para lidar com a epidemia, era normal que se multiplicassem os casos de feitiçaria e de rituais contra a peste. Este tipo de práticas já era conhecido em Genebra antes da reforma e, tal como antes, os protestantes replicam com a perseguição, tortura e morte dos suspeitos. Aquelas que são identificadas como bruxas são queimadas vivas, enquanto se propaga a ideia de que estas desgraças são um castigo de Deus.

Em 1542, o filho de Calvino, Jacques, morre pouco depois de nascer em 28 de Julho.

Crescimento demográfico
A partir de 1542 e sobretudo na década de 1550, a cidade de Genebra vai conhecer um grande crescimento demográfico, com a chegada de refugiados franceses, protestantes perseguidos em França. Consequentemente, há uma fase de expansão económica (relojoaria, tecelagem...) e a língua francesa começa a ter preponderância sobre o dialecto franco-provençal da região.

Mas é também uma época marcada pelo crescimento de sentimentos xenófobos, em parte devidos a ressentimentos contra Calvino:

Em Janeiro de 1546 é preso Pierre Ameaux, que tinha injuriado publicamente Calvino, ao referir-se a este como um "picard", pregador de uma falsa fé.
Um outro senhor Ameaux é preso mais tarde por razões semelhantes. Este senhor tinha boas razões para não gostar do extremo zelo religioso imposto por Calvino, já que era fabricante de cartas de jogo. Foi condenado a percorrer a cidade de uma ponta à outra, descalço, em camisa, com uma vela na mão.
A 23 de Setembro de 1547, François Favre comparece em tribunal por ter afirmado que Calvino se auto-nomeara bispo de Genebra e que os franceses tinham escravizado a sua cidade natal.
Mais tarde, em 1548, um senhor chamado Nicole Bromet declara que os franceses deveriam ser todos colocados num barco e enviados pelo rio Reno abaixo.
Em 1547, Henrique II de França sucede a Francisco I. Henrique será um rei menos reconhecido, em comparação com Francisco. É caracterizado como menos carismático, menos entusiasta pelas artes e ciências, mais introvertido e frio.

Em 29 de Março de 1549 morre Idellete Calvino, após doença. Calvino não voltará a casar. Dedica-se ainda mais decididamente ao trabalho.

Em 1550 a repressão dos huguenotes em França cresce. É estabelecida a chambre ardente. A censura é fortalecida.

O caso Miguel Servet
Miguel Servet era um homem de cultura, um médico, interessado, entre muitas outras coisas, na religião. Como livre pensador, defendia que o dogma da Trindade não fazia qualquer sentido, sendo apenas um sofisma inventado no Primeiro Concílio de Niceia. Será perseguido pela Igreja Católica em França, através da Inquisição, por causa das suas teses. Escapa e dirige-se a Genebra, mas os protestantes mostraram-se não menos intolerantes para com as suas ideias.

A história da ligação entre Servet e Calvino começa já em 1534, ano em que ambos estiveram em Paris. Esteve nessa altura planejado um encontro que não chegou a realizar-se. No entanto, trocariam correpondência por vários anos.

O debate foi tornando-se numa azeda discussão. Um dos pontos principais da discussão epistolar continuava a ser a Santíssima Trindade. Perante a sua proposta para que Calvino lesse o manuscrito do seu Livro "Restitutio" (tendo-o enviado pelo correio), Calvino diz-lhe que deveria ler o seu "Institutio". Servet fê-lo e escreveu comentários críticos nas margens do texto que foram depois enviados a Calvino.

Calvino recebeu o manuscrito mas não lhe respondeu. Nem sequer devolveu o manuscrito do Restitutio, que Servet lhe pedia que remetesse. Calvino manteve o seu silêncio, cultivando preocupação em relação a Servet e às suas heresias. Teria, mais tarde, a sua oportunidade de se vingar.

No princípio de Abril de 1553 a Inquisição francesa recebeu misteriosamente a posse de documentos que compromentiam Servet. Entre eles, as cartas de Servet a Calvino. Ainda em 5 de Abril, Servet é ouvido pelos inquisidores. A 7 de Abril, porém, consegue escapar-se da prisão. Dirigiu-se a Genebra, talvez por pensar que entre os protestantes estaria a salvo da Inquisição. Enganou-se. Foi preso pelas autoridades da cidade de Genebra a 13 de Agosto.

O seu julgamento tornou-se um caso discutido. Foi pedida a opinião a padres de Berna, Zurique e outras cidades. A maioria desprezava Servet - a trindade era, na sua opinião, indiscutível.

Calvino, também acusado pelos católicos de arianismo, poderá ter visto aqui a oportunidade de mostrar que defendia o conceito trinitário, ao mesmo tempo que mostraria que também estava empenhado em perseguir os heréticos. Um herético do lado de lá da fronteira também é um herético dentro da cidade.

A 27 de Outubro de 1553 Miguel Servet é queimado vivo em Genebra.

Relacionamento com a reforma inglesa
Por volta de 1550, Calvino escreve ao rei Eduardo VI de Inglaterra, um protestante, encorajando-o nas suas reformas. O rei Eduardo VI fez acolher protestantes franceses, perseguidos no país natal. Após o reinado de Eduardo VI (1547-1553) o catolicismo regressa à Inglaterra sob a liderança de Maria Tudor.

Novas dificuldades
Entre 1553 e 1555, em Genebra, a relação tensa entre a igreja - particularmente o consistório, onde Calvino é uma figura de relevo - e as autoridades seculares da cidade, eleitas entre os habitantes (ricos) da cidade, atinge o seu auge. Discutia-se, então, a questão de saber se o consistório teria ou não o direito de excomungar pessoas, algo que se vinha a passar com relativa frequência. As amargas trocas de palavras entre estes dois pólos multiplicaram-se. Por um lado, o zelo religioso dos Calvinistas, do outro, a autoridade política da cidade. Em Janeiro de 1555 há uma procissão noturna de pessoas em Genebra, caminhando de vela na mão, com a pretensão de ridicularizar Calvino.

Apesar disso, e em parte por causa do peso relativo da população protestante francesa que se tinha refugiado na cidade, as eleições dos 4 novos "Syndics" de Genebra em Fevereiro de 1555 é favorável aos Calvinistas, que se impõem contra os "Enfants de Genève" sob a liderança de Perrin. Após as eleições, porém, há desacatos na rua entre as duas partes. Perrin e outros líderes da revolta são presos e serão decapitados e esquartejados. Os pedaços dos cadáveres foram, depois, exibidos nas ruas da cidade.

Também a doutrina da Predestinação foi muito atacada nestes anos, principalmente por um monge carmelita chamado Hiérome Bolsec, nascido em Paris, que se tinha estabelecido em Genebra. Argumentava que se Deus fosse o responsável por tudo o que se passa, então, também seria responsável pelos nossos pecados. Calvino responde que nunca disse isso e as autoridades apoiam-no. Em Berna, os críticos de Calvino são expulsos da cidade em 1555.

Em 1555 são erguidas as primeiras igrejas calvinistas em França, nomeadamente em Paris, Meaux, Angers, Poitiers e Loudun. Nos três anos seguintes surgem as comunidades de Orleães, Rouen, La Rochelle, Toulouse, Rennes e Lyon.

A 8 de Junho de 1558, Calvino escreve a Antoine de Bourbon, o Rei de Navarra e consorte de Jeanne d'Albret, exortando-o a seguir na sua vida privada os mesmos valores ascéticos que os seus súbditos.

Entre 26 e 29 de Maio de 1559 realiza-se em Paris um sínodo nacional protestante. Cerca de 30 paróquias aparecem aí representadas. O sínodo será responsável pela elaboração de um texto de linhas orientadoras (com a participação de Calvino na sua criação), que se chamará Confession de La Rochelle (texto confirmado nesta cidade em 1571).

Em 1559 Calvino fundou uma escola e um hospital.

Em Abril de 1559 é assinado o pacto de paz entre a França e a Espanha, em Cateau-Cambrésis.

Morte
Nos seus últimos anos de vida, a saúde de Calvino começou a vacilar. Sofrendo de enxaquecas, hemorragia pulmonar, gota e pedras nos rins foi, por vezes, levado carregado para o púlpito. Calvino continuava a ter detratores declarados que lhe dirigiam ameaças constantes.

Entretanto, apreciava passar os seus tempos livres no lago de Genebra, lendo as escrituras e bebendo vinho tinto. No fim de sua vida disse a seus amigos que estavam preocupados com o seu regime diário de trabalho: "Qual quê? Querem que o Senhor me encontre ocioso quando ele chegar?"

João Calvino morreu em Genebra a 27 de maio de 1564. Foi enterrado numa sepultura simples e não marcada, conforme o seu próprio pedido.

Fonte: Wikipedia Brasil

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A Reforma Protestante

Por Rev. José Roberto Costanza

A Igreja Cristã nasceu no momento em que Jesus convocou Seu primeiro discípulo para a obra de Deus (ver Jo 1.35-51). Jesus chamava, e as pessoas vinham se agregar ao Grupo Santo. A história da vida do Mestre nós bem a conhecemos, através dos Evangelhos e demais livros do Novo Testamento. Mas, o que aconteceu quando o Cabeça da Igreja deixou este mundo?
Atos 1.6-12 nos fala da ascensão do Senhor e nos reporta que a Igreja perseverava unânime em oração. Ora, sabemos que é impossível buscar a presença do Senhor sem a ação do Espírito. O Evangelho de João nos diz que o Espírito já havia sido dado aos discípulos antes do Pentecoste, diretamente por Jesus ressurreto (Jo 20.22). Sob o poder e ação do Espírito esses mesmos discípulos escolheram Matias, como substituto para Judas Iscariotes, o traidor.
Cinqüenta dias depois da Páscoa, na festa do Pentecoste, o Espírito foi outorgado à Igreja de maneira plena, para não somente conduzi-la à Salvação e à Glória com o eterno Pai, mas, sobretudo, lhe dar poder para testemunhar de Cristo.
A História da Igreja Cristã se divide, pois, em dois períodos aparentemente distintos, mas, na realidade, praticamente não há diferença entre eles. O primeiro nos fala dos atos de Jesus e de Seus seguidores, até o dia em que Ele foi elevado às alturas (At 1.2). Sem que houvesse descontinuidade, no segundo período, Jesus age através do Espírito Santo. É isso que Lucas quis dizer na introdução ao livro de Atos. O Pentecoste foi o cumprimento da Promessa, conforme o relato do mesmo Lucas, em seu Evangelho (Lc 24.49). A Igreja, que já era nascida do Espírito, recebeu a Sua plenitude, o "batismo de poder" de que nos falam os pais reformados. Tinha o Espírito, orou unânime, e o Espírito foi derramado em Sua plenitude.
O Pentecoste nos mostra quão grandiosa é a bênção decorrente de uma Igreja unânime em oração. Milhares foram batizados, a Igreja cresceu, prosperou e testemunhou de Cristo: em Jerusalém, na Judéia e Samaria e até os confins da terra, conforme a promessa de Jesus em At 1.8.
Às vezes, no curso da História da Igreja, houve momentos em que nos é difícil ver a ação do Espírito Santo de Deus. Em alguns períodos parecerá que toda a Igreja abandonou por completo a fé bíblica. Contudo, devemos nos lembrar que a História da Igreja é também a história dos atos de pessoas pecadoras como nós e, se abrirmos bem os nossos olhos, e olharmos para a História com os óculos da fé, veremos que, nos momentos mais escuros da história eclesiástica, nunca faltaram aqueles que preservaram a chama santa e ajudaram a conduzir a Igreja no caminho certo. E dentre os que preservaram a fé certamente estão inseridos os reformadores do século XVI.
No início do século XIV, apesar das vozes de protesto dos verdadeiros crentes, a liderança da Igreja Romana teimava em manter a Arca da Fé fora dos rumos estabelecidos pelas Sagradas Escrituras. Diante de tal situação, surgiram vozes de protesto, propugnando por uma reforma na Igreja. Essas vozes ou foram insuficientes ou foram caladas pela fogueira. Mas o Deus Todo-Poderoso, por sua Providência, tal como já havia operado por ocasião da vinda de Cristo, criou as condições necessárias para que a Reforma pudesse subsistir.
Assim é, como diz João Calvino no livro IV das Institutas, quando necessário, Deus pode suscitar apóstolos e evangelistas para intervir soberanamente na vida da Igreja. Para Calvino, o grande reformador Martinho Lutero é um exemplo típico de apóstolo de Jesus Cristo, e através de quem a pureza do Evangelho recuperou a sua honra.
Lutero, em 1505, com 22 anos, resolveu tornar-se um monge agostiniano. Sua justificativa para tal ato foi a de que o caminho mais adequado para a salvação era através da vida monástica.
Mas, no convento, Lutero não encontrou a paz de espírito desejada. O sentimento de culpa pelo pecado e a sensação de estar sempre debaixo da ira divina fez com que ele se excedesse em jejuns, vigílias e flagelações; além do quê, procurava seu confessor a toda hora. Em 1512, para tentar minorar a angústia do futuro reformador, seu superior, Staupitz, mandou que ele fosse lecionar Filosofia e Teologia na nova universidade de Wittenberg, recebendo, para o exercício do cargo, o título acadêmico de doutor em teologia.
No ano seguinte, enquanto lia a Carta aos Romanos, Lutero deparou-se com o texto "O justo viverá por fé" (Rm 1.17 b) e concluiu que a "justiça de Deus" não se refere ao fato de que Deus castigue os pecadores; mas, que a justiça do justo não é obra sua, mas um dom ou dádiva de Deus. O crente vive pela fé, não porque seja justo em si mesmo, ou porque cumpra as exigências da justiça divina, mas porque Deus lhe dá esse dom. A fé não é uma qualidade do homem, pela qual ele mereça uma recompensa da parte de Deus.
A justificação pela fé, pela qual o homem recebe o perdão gratuito de Deus, não pressupõe a indiferença de Deus diante do pecado. Pelo contrário, Deus é santo, e o pecado lhe causa repugnância. O cristão é, ao mesmo tempo, justo e pecador. Ele não deixa de ser pecador quando é justificado. Pelo contrário, quem recebe a justificação pela fé descobre, em si mesmo, o quanto é pecador, e não por ser justificado é que deixa de pecar. Finalmente, a justificação não é ausência do pecado, mas o fato de que Deus nos declara justos ainda que em meio ao nosso pecado. Esta é a verdade da justificação pela fé; e contra esta verdade, e acima dela, pairava o ensino da igreja romana que o homem pode alcançar a salvação pelas obras. Nessa época, Lutero ainda não tinha percebido que sua grande descoberta se opunha a todo o sistema de penitências da Igreja Católica.
Por mais de quatro anos, Lutero trabalhou em Wittenberg sem romper com a igreja. Até que, em 1517, apareceu, nas cercanias da cidade, um homem chamado João Tetzel, enviado para vender indulgências emitidas pelo papa. Tetzel afirmava, entre outras coisas, que os aqueles que comprassem as indulgências por ele vendidas, ficariam mais limpos que Adão antes de pecar. Essas indulgências, em última análise, ofereciam diminuição das penas do purgatório, até para os parentes já mortos ("tão pronto a moeda caísse no cofre, a alma saía do purgatório"). Ao saber do fato, Lutero se indignou, uma vez que o tráfico das indulgências estava desviando o povo do ensino a respeito de Deus e do pecado, enfraquecendo seriamente a vida moral do povo. Decidiu, então, enfrentar tão grande erro e abuso.
Nas universidades medievais, era costume apor-se, em lugares públicos, a defesa ou ataque de certas opiniões. Esses escritos eram chamados de "teses", nas quais se debatiam as idéias e se convidavam todos os interessados para uma discussão acadêmica. No dia 31 de outubro de 1517, véspera do dia de Todos os Santos, quando muita gente comparecia à igreja do castelo de Wittenberg, Lutero afixou, nas portas dessa igreja, 95 teses que deviam servir de base para um debate acadêmico, onde atacou principalmente a prática das indulgências, declarando que estas não tinham poder para remover a culpa ou afetar a situação das almas no purgatório; e que o cristão arrependido tinha o perdão vindo diretamente de Deus. Segundo Lutero, se era verdade que o papa tinha poderes para tirar uma alma do purgatório, ele tinha que utilizar esse poder, não por razões triviais como a necessidade de fundos para construir uma igreja, mas simplesmente por amor, e assim fazê-lo gratuitamente (tese 82).
A venda de indulgências que Lutero atacou havia sido autorizada pelo papa, em troca de que a metade do produto fosse enviada para os cofres da Igreja. Com esse dinheiro, o papa Leão X sonhava com o término da Basílica de São Pedro. Sobre este assunto Lutero ainda declarou: "... o certo é que o papa deveria dar o seu próprio dinheiro aos pobres de quem os vendedores de indulgências tiravam, mesmo que para isso tivesse que vender a Basílica de São Pedro" (tese 51). A grande basílica, que é hoje o orgulho da Igreja romana, foi uma das causas indiretas da reforma protestante.
As teses negavam, ainda, o pretenso poder de a igreja de ser mediadora entre o homem e Deus e de conferir perdão aos pecadores. A resposta da Igreja Romana foi rápida e violenta, visto que Lutero havia mexido em uma das maiores fontes de receita da Igreja.
Diante das teses e da repercussão que elas alcançaram, o papa intimou Lutero a comparecer a Roma para se justificar. Ora, isso significaria morte certa. Lutero não escaparia da fogueira. Por providência divina, o Eleitor da Saxônia protegeu seu súdito, ordenando que o caso fosse discutido na Alemanha. No debate que se seguiu, Lutero foi mais longe ainda, declarando que o papa não tinha autoridade divina e que os concílios eclesiásticos não eram infalíveis. Essas afirmações configuraram um rompimento definitivo com a Igreja Católica Romana.
Aberta assim a luta, o Reformador prosseguiu sem temor, agindo com muita rapidez. O que mais chocou a Igreja Católica foi sua afirmativa de que nem o papa, nem os sacerdotes tinham poderes sobrenaturais. Ora, caso essa idéia encontrasse apoio e adesão, a Igreja sofreria um tremendo golpe em sua autoridade. E Isso aconteceu. Essa é a razão pela qual Lutero é, ainda hoje, considerado, por alguns setores mais ortodoxos da Igreja Católica, como o herege destruidor da unidade da Igreja, um javali selvagem que penetrou na vinha do Senhor (bula "exsurge domine). Lutero passou então a provar que todos os cristãos são sacerdotes, tendo acesso à presença de Deus mediante a fé em Cristo. Negou que somente o papa pudesse interpretar as Escrituras. Estas, disse ele, podiam ser interpretadas por qualquer crente sincero. Em vista de suas afirmações, o povo viu que qualquer pessoa podia ser verdadeiramente cristã sem ter a necessidade de prestar obediência ao papa.
Como era de se esperar, Lutero foi excomungado pelo papa, mas esse ato só seria tornado efetivo após a aprovação pelo parlamento alemão, chamado "Dieta", que foi convocado para se reunir, em 1521, na cidade de Worms. Na Dieta, Lutero foi instado pelo imperador a se retratar de seus atos e livros que escrevera, ao que respondeu: "É impossível retratar-me, a não ser que me provem que estou errado, pelo testemunho das Escrituras... Minha consciência está alicerçada na Palavra de Deus. Assim Deus me ajude. Amém". Diante das palavras de Lutero, houve grande confusão. De um lado, os partidários do papa, que gritavam: "à fogueira com ele"; e de outro, seus compatriotas alemães fizeram um escudo humano para protegê-lo, retirando-o do ambiente. O Parlamento decretou Lutero fora da lei e a destruição de seus escritos, mas os alemães o protegeram, escondendo-o em um castelo amigo. Durante o período em que esteve recluso, Lutero aproveitou para traduzir a Bíblia para o alemão, cujas cópias foram colocadas nos bancos das igrejas. Os dotes musicais de Lutero o impeliram a redigir, baseado no salmo 46, a letra daquele que viria a ser o hino da Reforma: "Castelo Forte é o Nosso Deus"
Lutero fez da Palavra de Deus o ponto de partida e a autoridade final de sua teologia. Como professor das Sagradas Escrituras, a Bíblia tinha para ele grande importância. A Palavra de Deus, na realidade, transcendia o revelado na Bíblia, pois ela é nada menos que Deus mesmo, a segunda pessoa da Trindade, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Cf. Jo 1). Sim, essa Palavra se encarnou em Jesus Cristo, que, por sua vez, é a revelação máxima de Deus e sua máxima ação. Em Jesus, Deus se nos deu a conhecer e, como Cristo, venceu os poderes do maligno, que nos sujeitavam. A revelação de Deus é também a vitória de Deus. A Bíblia é, então, a Palavra de Deus porque nela Jesus Cristo chega até nós.
Para Lutero, a autoridade final está no Evangelho, na mensagem de Jesus Cristo, que é a Palavra de Deus encarnada. Visto que a Bíblia dá um testemunho mais fidedigno desse Evangelho do que a igreja corrompida do papa, a Bíblia tem autoridade sobre a Igreja.
A teologia de Lutero nos diz ainda que é possível ter certo conhecimento de Deus por meios puramente racionais ou naturais. Este conhecimento permite ao ser humano saber que Deus existe, e distinguir entre o bem e o mal. Porém, esse não é o verdadeiro conhecimento de Deus. A Deus não se conhece como quem usa uma escada para subir ao telhado. Todos os esforços da mente humana para elevar-se ao céu e conhecer a Deus são totalmente inúteis. Esses esforços nos conduzem à teologia da Glória. Tal teologia pretende ver Deus como ele é, em sua própria glória, sem ter em conta a enorme distância que separa o ser humano de Deus. O que a teologia da glória faz, no final das contas, é pretender ver a Deus naquelas coisas que nós humanos consideramos mais valiosas e, portanto, fala do poder de Deus, da glória de Deus, da bondade de Deus. Porém, tudo isto não é mais do que fazer Deus à nossa própria imagem e pretender que Deus seja como nós mesmos desejamos que Ele seja. O fato é que Deus, em Sua revelação, se nos dá a conhecer de um modo muito distinto. A suprema revelação de Deus tem lugar na cruz de Cristo e, portanto, em lugar da teologia da glória, é necessário que o crente siga o caminho da teologia da cruz. O que essa teologia busca é ver Deus, não onde nós queremos vê-Lo, nem como nós desejamos que Ele seja, mas sim onde Deus se revela, e como Ele mesmo se revela, isso é, na cruz. Ali, Deus se manifestou na debilidade, no sofrimento e no escândalo. Ou seja, Deus atua de modo radicalmente distinto do que se poderia esperar. Deus, na cruz, destrói todas as nossas idéias pré-concebidas da glória divina.
Apesar de seu protesto contra as doutrinas comumente aceitas, e de sua rebeldia contra as autoridades da igreja romana, Lutero sempre pensou que a Igreja era parte essencial da religião cristã, repetindo o aforismo de Cipriano de Cartago (Extra ecclesia, nula salus – fora da igreja, não há salvação). Em sua eclesiologia, a communio sanctorum ou comunhão dos santos, preconizada pelo Credo dos Apóstolos, não contemplava apenas uma comunhão direta do indivíduo com Deus, mas uma vida cristã no meio de uma comunidade de fiéis.
Lutero também combateu o clericalismo na Igreja, pois a Escritura diz que todos os cristãos são sacerdotes (cf. 1 Pe 2.9), podendo, assim, comunicar-se, pela oração, diretamente com o Criador. Mas, isto não quer dizer que cada crente deva isolar-se em si mesmo; pois o ser sacerdote não contempla somente uma relação interpessoal homem-Cristo. O sacerdócio do crente é universal, ou seja, cada crente é sacerdote de seu irmão, estando capacitado a se apresentar diante de Deus para orar por seus irmãos em Cristo e para lhes ensinar as maravilhas do Evangelho. Este sacerdócio comum de todos em benefício de todos une a igreja, pois nenhum cristão pode dizer que é cristão sem aceitar a honra e a responsabilidade do sacerdócio. Mas, em contraposição ao citado benefício e privilégio, há a responsabilidade e o serviço decorrente. A unidade e igualdade em Cristo devem ser demonstradas pelo amor mútuo e cuidado de uns pelos outros. Isso implica que ninguém pode ser um cristão sozinho. Assim como uma pessoa não pode nascer de si mesmo ou se autobatizar, da mesma forma não se pode servir a Deus sozinho.
Para quem estava acorrentado durante séculos, a liberdade tende a ser confusa e até certo ponto perigosa, porque as pessoas, de uma maneira geral, não têm a justa medida dos limites de sua própria liberdade, ou direito. E isso, na sociedade medieval, gerou muitos conflitos, alguns dos quais enfraqueceram politicamente a Reforma.
Em 1529, tendo recebido reforços daqueles que desistiram, por medo, de apoiar a Reforma, reuniu-se, na cidade de Spira, nova Dieta, para deliberar sobre os últimos acontecimentos que agitavam a nação alemã. A maioria católica decidiu pelo impedimento de qualquer propaganda da Reforma. Contra isso, os do partido de Lutero protestaram, razão pela qual, daí por diante, os seguidores da Reforma são geralmente chamados de "Protestantes".
No ano seguinte, em Augsburgo, os reformados luteranos expuseram sua teologia, através de uma Confissão, que é considerada a Carta Magna da Reforma Luterana, da qual podemos extrair cinco princípios básicos: 1) só a Escritura, 2) só a Fé, 3) só Cristo, 4) só a Graça e 5) Sacerdócio Universal. A ordem conforme foram apresentados não indica uma maior importância de um sobre os demais, visto que cada um deles tem a ver com os desvios ou erros em que a Igreja Católica havia incidido ao longo de mil e quinhentos anos.
A Dieta de Augsburgo deu um ultimato aos protestantes, o que valeu por uma declaração de guerra, que finalmente eclodiu em 1546, pouco depois da morte de Lutero, que faleceu aos sessenta e três anos.
Ao olharmos para a Reforma com os olhos da fé e não com a ótica do século, como alguns líderes evangélicos hoje o fazem, à luz da influência de livros de história geral, os quais estão impregnados de doutrinas sociais e econômicas, a entendemos como tendo sido um movimento essencialmente religioso. Não há dúvida de que sempre houve uma semente santa na Igreja, mantida pelo Espírito Santo, o toco a que se refere o profeta Isaías (Is 6.13). Esse toco contém uma brasa eterna, o Corpo de Cristo. A Reforma foi um reavivamento dessa brasa, cuja chama de testemunho se espalhou por toda a terra. Mas uma coisa fica bem clara: a reforma não se produziu porque Lutero, Zuínglio e Calvino, os principais reformadores do século XVI, se propuseram a isso, mas porque chegou o momento oportuno de Deus.
Hoje, nós, os filhos da Reforma, estamos comemorando 486 anos. Ao longo de nossa história houve momentos de plena obediência a Deus e Sua Palavra, assim como períodos de ênfase excessiva em valores puramente humanos. Épocas em que setores do protestantismo, por influência de doutrinas deletérias racionalistas, se afastaram dos ideais dos reformadores, a ponto de romper com uma das essências da fé cristã que é a crença na divindade de Cristo. Doutrinas estranhas à Palavra de Deus, à toda hora estão batendo à nossa porta. Cabe a nós, os atalaias da fé reformada, vigiar e orar, para que o inimigo de nossas almas não nos pegue desprevenidos e nos peneire. Nos dias atuais, mais do que nunca, é preciso que nos mantenhamos fiéis ao aforismo de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius, à época do Sínodo de Dort: "Ecclesia reformata, semper reformanda", que muitos têm traduzido equivocadamente, mas que quer dizer: Igreja Reformada sempre se mantendo fiel aos princípios da Reforma. Que as comemorações do dia da Reforma nos façam sempre relembrar que ela, à luz da Palavra de "Deus, estabeleceu princípios, não costumes, e que esses princípios não podem nem dever ser levianamente considerados pela igreja que se diz reformada. Mantenhamos, pois, a sã doutrina dos reformadores, reverenciando aqueles apóstolos de Jesus Cristo, por meio de quem a pureza do Evangelho recuperou a sua honra. E que Deus nos abençoe. Amém.


*Pb. José Roberto Costanza é professor no Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro

sábado, 19 de dezembro de 2009

Predestinação e Presciência

PREDESTINAÇÃO E PRESCIÊNCIA SÃO ELEMENTOS CORRELATOS, NÃO ESTA A CAUSA DAQUELA; A PREDESTINAÇÃO EVIDENCIADA NA ELEIÇÃO DE ISRAEL, ESCOLHIDO PELO MERO BENEPLÁCITO DE DEUS.


Ninguém que queira ser tido por homem de bem e temente a Deus se atreverá a negar simplesmente a predestinação, pela qual Deus adota a uns para a esperança da vida, a outros destina à morte eterna, porém, a envolvem em muitas cavilações, sobretudo os que fazem da presciência sua causa. E nós, com efeito, admitimos que a ambas estão em Deus, porém o que agora afirmamos é que é totalmente infundado fazer uma depender da outra. Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que ele tem sempre e perpetuamente permanente sob as vistas, de sorte que, ao seu conhecimento, nada é futuro ou pretérito; ao contrário, todas as coisas estão presentes, e de fato tão presentes que não as imagina como meras idéias – da maneira como imaginamos aquelas coisas das quais nossa mente retém a lembrança –, mas as visualiza e discerne como se estivessem verdadeiramente diante dele. E esta presciência se estende a todo o âmbito do mundo e a todas as criaturas.

Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. Deus, porém atesta esta predestinação não só em cada pessoa, mas também deu exemplo dela em toda a descendência de Abraão, da qual fizesse manifesto que está em seu arbítrio de que natureza seja a condição futura de cada nação.

“Como o Altíssimo dividisse os povos e separasse os filhos de Adão, sua porção foi o povo de Israel, o cordel de sua herança” [Dt 32.8, 9]. A separação está ante os olhos de todos: na pessoa de Abraão, como que em um tronco seco, rejeitados os outros, somente um povo é peculiarmente eleito. A causa dessa escolha, porém, não se põe à mostra, senão que Moisés, para que aos descendentes cortasse a asa de gloriar-se, ensina que estes se sobressaem somente pelo gracioso amor de Deus. Ora, ele determina que esta é a causa de sua libertação: que “Deus amou a seus pais e escolheu sua semente após eles” [Dt 4.37]. Mais expressamente em outro capítulo: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos. Mas porque o Senhor vos amava ...” [Dt 7.7, 8]. Muitas vezes mais, nele se repete esta afirmação: “Eis que os céus e o céu dos céus são do Senhor teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência dele, escolheu ...” [Dt 10.14, 15].

Igualmente, em outro lugar preceitua-lhes a santificação, porque foram escolhidos para ser “seu povo especial” [Dt 7.6]. E, em outro lugar, por sua vez, declara que seu amor é a causa de sua proteção [Dt 23.5]. Isto proclamam também os fiéis, a uma voz: “Escolherá para nós nossa herança, a glória de Jacó, a quem amou” [Sl 47.4]. Pois os dotes dos quais foram por Deus adornados atribuem-lhe todos ao gracioso amor, não só porque sabiam que não foram alcançados por algum mérito pessoal, mas também que nem o próprio santo patriarca teve virtude suficiente para adquirir para si e para sua posteridade tão singular prerrogativa e dignidade. E, para que mais vigorosamente esmagasse toda soberba, lança-lhes em rosto que nada dessa natureza haviam merecido, visto ser este um povo contumaz e de dura cerviz [Ex 32.9; Dt 9.6]. Também os profetas lançam com freqüência esta eleição diante dos judeus, de forma odienta e à guisa de reprimenda, visto que haviam se afastado dela vergonhosamente.

O que quer que seja, adiantem-se agora os que querem restringir a eleição divina ou à dignidade dos homens ou aos méritos das obras. Quando vêem um povo ser preferido a todos os outros e ouvem que Deus não se deixou induzir por nenhum respeito que o levasse a ser mais propenso a uns poucos e maus e indignos, aliás, até mesmo ímpios e indóceis, porventura litigarão com ele porque quis exibir tal demonstração de misericórdia? Com efeito, muito menos impedirão sua obra com suas vozes estridentes; nem atirando ao céu as pedras dos insultos haverão de ferir ou danificar a justiça; antes elas haverão de cair em suas cabeças.

Os israelitas são também lembrados deste princípio de um pacto de graça, quando se trata de dar graças a Deus, ou de confirmar-se numa esperança em relação ao tempo futuro. “Ele nos fez, e não nós mesmos”, diz o Profeta, somos seu povo e ovelhas de seu pastoreio” [Sl 100.3]. A negação que emprega não é supérflua: “e não nós mesmos”, o que se adiciona com vistas a excluir-nos, para que saibam que Deus é não só o autor de todas as coisas boas que os fazem mais excelentes, mas que também ele mesmo é a causa, porque não existia neles nada que os fizesse dignos de tão grande honra.

Com estas palavras também ordena que estejam contentes com o simples beneplácito de Deus: “Vós, semente de Abraão, seu servo; vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” [Sl 105.6]. E depois de enumerar os benefícios contínuos de Deus como frutos da eleição, afinal conclui que ele agiu com tanta generosidade porque “se lembrou de seu pacto” [Sl 105.42]. O cântico de toda a Igreja faz ecoar esta doutrina:“Pois não conquistaram a terra por sua espada, nem seu braço os salvou, mas tua destra e teu braço, e a luz de tua face, porquanto te agradaste deles” [Sl 44.3]. Devese, porém, notar que onde se faz menção da terra, ela é o símbolo visível da separação secreta em que se contém a adoção. Davi, em outro lugar, exorta ao povo à mesma gratidão: “Bem-aventurada a nação cujo Deus é Jeová, o povo ao qual escolheu para si por herança” [Sl 33.12]. Samuel os anima à boa esperança: “Deus não vos abandonará, por amor de seu grande nome, já que lhe aprouve criar-vos para serdes seu povo” [1Sm 12.22]. Como também Davi se arma para a batalha, quando sua fé é atacada: “Bem-aventurado aquele a quem escolheste, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” [Sl 65.4].

Mas, a eleição oculta em Deus foi confirmada tanto pelo primeiro livramento, quanto pelo segundo e por outros benefícios intermédios, Isaías transfere o termo eleger ao fato de que “Deus se compadecerá de Jacó e ainda elegerá de Israel” [Is 14.1]; porquanto, delineando o tempo vindouro, o Profeta diz que o sinal da eleição estável e sólida é o ajuntamento do povo remanescente, ao qual parecera haver abdicado, ajuntamento que nesse tempo parecera haver sido frustrado. Além disso, quando se diz em outro lugar: “Eu te escolhi e não te rejeitei” [Is 41.9], o Senhor enfatiza o curso contínuo da insigne liberalidade de sua paterna benevolência. Mais
expressamente, diz o Anjo em Zacarias [2.12]: “Deus ainda escolherá a Jerusalém”, como se, castigando-a mais duramente, a houvesse rejeitado, ou como se o exílio houvesse sido a interrupção da eleição, a qual, todavia, permanece inviolável, ainda que suas evidências nem sempre se exibam tão nitidamente.



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Fonte: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, Livro III, Capítulo 21, Parágrafo 5. Editora Cultura Cristã.

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